sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Linhas dos Natais




Saudosismos?!

Manhã de 26 de dezembro, o olhar vaga pela casa que guarda as lembranças da festa. Pára na sala, passa pelo presépio montado na lareira com papel-pedra imitando a gruta, corre ao pinheirinho (de plástico) enfeitado com os pequenos objetos coloridos e brilhantes que vão se acumulando através dos anos - se detém num pião, dourado e verde, pendurado entre bolas e laços,e num instante puxa a linha da memória que gira, como um caleidoscópio, pelos Natais da minha vida.

Vejo longe, flocos de algodão levemente pousados em galhos de Araucária que sustentavam pesadas e frágeis bolas de vidro de vermelhos e pratas tão polidos que refletiam com uma nitidez impressionante e se transformavam em espelhos mágicos que engordavam e distorciam os olhos e sorrisos das crianças. Quando caiam se espatifavam em mil caquinhos – que a gente moía transformando o vidro em purpurina, misturava com goma arábica e contornava os cromos colados em cartolinas onde eram transmitidos os votos natalinos pregados nas janelas. Ao lado do pinheirinho armava-se o presépio, motivo e centro da data, uma maquete montada com caixas, forrada com musgos, pedras e areias coloridas, cheio de carneirinhos e seus pastores, casinhas nas encostas, a sagrada família, os três reis magos, os anjos e a estrela.

Dos presentes pouco me lembro – sei que havia sempre uma roupa nova para a missa do galo e um brinquedo simples, com certeza. Mas o que ficou gravado como uma fotografia era aquele sempre mesmo canto da sala montado das expectativas para a noite santa em que a família se enfeitava, a cozinha cheirava galinha assada, pão de mel, maçã e fragrâncias amendoadas e os primos e primas eram aguardados com ansiedade. Os singelos Natais da minha infância.

Mais tarde veio o primeiro tempo de divisão – eu tinha, quem sabe, um metro e meio, me encarregava agora da decoração da sala com muito senso estético - mas desviava os olhos daquelas bolas brilhantes que despertavam uma nostalgia que eu queria ignorar. O tempo me obrigava a crescer e o mundo que eu via tirava da minha alma adolescente a alegria do Natal.

Muitos Natais depois, com a minha menina loira de olhar azul, o espírito voltou na forma de um pinheirinho de três palmos e uma caixa de bolas de vidro prateadas arranjados sobre uma mesinha de canto na sala daquele moderno apartamento de casada, com vista para o mar, num Natal de muito calor, pouca família e nenhum presépio.

O tempo deu suas voltas em nossas vidas e um dia habitávamos uma casa que tinha cara de Natal: grandes janelas, jardins, crianças e bichos. Pinheiros de cinco metros fartamente enfeitados de laços, brinquedinhos, bolas e tudo mais que a imaginação e a habilidade pudessem criar enfeitaram os anos de muitas festas em que a família (que crescia na proporção de uma ou mais crianças por ano) se reunia numa profusão de pacotes enfeitados e brinquedos promovidos pelo Papai Noel. O perfume de cedro fresco rescendia na casa arejada e da cozinha vinham para a grande mesa perus, presuntos, empadões, sorvetes e muito chocolate. Comovíamos-nos cantando Noite Feliz abraçados, secretamente desejando que uma impossível nevezinha batesse à porta. O presépio era apenas uma pequena cena bucólica, sempre esteticamente arranjada e iluminada.

Daqueles anos me lembro da preocupação com os detalhes, de gente e mais gente chegando, da gritaria das crianças no corre-corre dos brinquedos novos. De nossas jovens conversas e nossos planos de felicidade futura.

Depois vieram os Natais dos anos de perdas – aquelas,intimamente profundas que todos temos, de pessoas e de sonhos. Estes foram os Natais mais guardados e sentidos, por isso mesmo, quem sabe, os mais cristãos. Cada um que partia deixava uma saudade doída e um ensinamento que fazia sentido. Cada sonho desfeito fazia amadurecer o espírito. E assim o presépio foi ganhando de novo significado na alma e no coração do Natal.

As crianças da casa grande cresceram e hoje têm as suas próprias: outros menininhos que anseiam em abrir os pacotes, mas já não se põem em desabaladas correrias aos gritos de alegria pelos corredores da casa - neste mundo de crianças sem rua para brincar, ao invés de bolas e bicicletas, as crianças de apartamento ganham montanhas de pacotes, bonecas com pilhas e games programados para "matar inimigos" - ilusões tão passageiras que, não raro, sequer sobrevivem dezembro. Os enfeites da árvore já não se quebram, por medida de segurança, mas não têm o brilho que captura caretas infantis. E a festa, que é cristã, quase não tem presépio: o centro de tudo é a mesa farta e pacotes para abrir. Alegria mesmo, só se vê na cara dos mui pequeninos, que esperam e sempre acreditam!

Muitos dizem que o espírito do Natal se perdeu nas ondas do consumismo desenfreado - acho que não, o que se perde nestas ondas é apenas a razão. O Natal evoca doação, desprendimento e o comércio se aproveita deste impulso humano para vender mais, só isso. No entanto, hoje em dia é tão fácil presentear que o ato perde o propósito e não preenche a alma de alegria.

Fomos longe na busca da felicidade do Natal pela quantidade de pacotes debaixo da árvore na sala de casa. E descobrimos que ela não estava lá. Mas estamos tomando o caminho de volta – o espírito desta festa, aos poucos, abre as portas de nossas casas e vai para a comunidade na forma de solidariedade.

Nossas próprias crianças estão tão fartas de brinquedos que o que nos comove são as imagens de crianças pobres e alheias sorrindo com os brinquedos que recebem. E, se não se vê nos convidados à nossa mesa, o brilho no olhar está naqueles que têm a fome de regalias saciada ao menos nestes dias. Às nossas vãs conversas de família falta o carisma das histórias de gente que nesta noite sai de seu conforto para confortar alguém. Papai Noel lhes empresta a fantasia, mas o espírito cristão da caridade, da empatia, da compaixão, toma a forma do cuidado amoroso das pessoas de boa vontade que dão forma à esperança que o presépio simboliza. Feliz o tempo em que as figuras de gesso da Noite Santa possam ser substituídas pela ação direta e efetiva das pessoas, vigiando e cuidando uns dos outros.

Este é o espírito que espero minhas crianças guardem em suas memórias – que, quando os pacotes, por serem tantos, não fizerem mais sentido, as lembranças dos Natais fiquem marcadas pelas atitudes amorosas e solidárias de suas famílias dentro e fora de suas casas. Que o Papai Noel desça de seu pedestal de super herói e que a força do Menino Jesus volte a comover nossos corações. Que sejamos como os Reis Magos dando à Criança nossa presença como o melhor presente.

E que então seja Natal todos os dias do ano.

Ana Lara

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Linhas do Papai Noel para as crianças



Mensagem do Papai Noel

Olá queridas crianças,

Estou feliz por estar com vocês nestes seus anos de infância como faço há muitas gerações, sempre procurando atender os seus pedidos.

Eu existo há muito, muito tempo e, de onde estou, observo como vivem as crianças do mundo todo. Fico triste em ver crianças tão pobrezinhas que não têm sequer o que comer quanto mais brinquedos para brincar. Quero explicar a vocês que no mundo mágico em que moro, preciso da ajuda dos adultos que cuidam das crianças para que tudo aconteça. Como tudo no mundo, sozinho eu não posso fazer nada. Os presentes que vocês recebem de mim são escolhas dos adultos que os cuidam.


Então eu peço a vocês que ajudem a cuidar das crianças pobrezinhas dando a elas brinquedos que sobram em seus quartos – assim vocês serão meus duendes, ajudando meu trabalho.


Mas há outra coisa que também entristece o meu coração, que é ver como as crianças das grandes cidades estão desaprendendo a brincar. O tempo passa muito depressa e a infância logo, logo se acaba. Vejo dias de domingo e feriados, de sol claro e céu azul e, muitos e muitos dos meus amiguinhos vendo TV ou jogando games no computador. Vejo as cozinhas frias e vazias e muitas famílias comendo comidas em lanchonetes que parecem legais, mas que não têm uma comida saudável para o crescimento dos ossos, dos músculos e do cérebro das crianças. Vejo muitas crianças assistindo desenhos na TV e poucas escutando histórias dos seus papais e mamães. Vejo as escolas ensinando muitas lições e dando poucos abraços e carinhos nos seus alunos. Parece que os adultos estão um pouco descuidados com as crianças hoje em dia – vocês têm que entender que eles têm muito que fazer e não sobra muito tempo.


Por isso eu quero fazer um pedido, muito especial a cada um de vocês: eu quero que vocês brinquem prá valer, todos os dias. Acordem cedo e durmam cedo porque as manhãs são como a infância do dia. Comam muita fruita fresca, alguma verdurinha, feijão, arroz e carninha, gelatina, sorvetinhos; bebam água pura ou sucos ao invés de refrigerantes. E pulem corda, joguem bola, façam pique, brinquem de roda com seus amigos, joguem futebol, brinquem com bonecas, façam e descubram tudo o que podem fazer a cada hora livre , antes de sentar em frente a TV.


Vocês são muito inteligentes e espertos – a grande maioria das crianças das cidades grandes sabe coisas que os antigos nunca conheceram, mas este novo modo de viver polui muito o nosso planeta – suja a água, o ar, o solo e deixa a alma um pouco triste. O antídoto para isso é a alegria sincera que sai do coração das crianças quando brincam de verdade usando suas pernas e braços, sua voz e seus ouvidos – correndo, pulando, subindo e descendo, cantando, sorrindo, sendo feliz! Se lembrem que vocês não precisam brinquedos caros e complicados, os últimos lançamentos que a TV mostra, para serem felizes vocês precisam só de amor e cuidado – precisam dos adultos brincando juntos e de outras crianças. Este é um direito das crianças e vocês têm que pedir isso a eles porque muitos dos adultos já esqueceram o que é ser criança.


O Papai Noel faz a sua parte assoprando nos ouvidos das pessoas, enquanto elas dormem, sobre as necessidades das crianças, mas é só o que eu posso fazer tudo mais depende de cada família.

Peço ao Papai do Céu que abençoe especialmente cada criança desta terra, que as proteja para que cresçam sadias, fortes e felizes para construírem um mundo mais limpo para o nosso futuro.


Com muito Amor,

Papai Noel

Linhas de reflexões - final de ano



Natal de 2008
O final de cada ano, fim de ciclo, é quase sempre marcado por uma necessidade de reflexão: o que fizemos e o que deixamos de fazer, os objetivos cumpridos e os sonhos mais uma vez deixados de lado. Soma-se a isso toda a pressão exercida pelo meio ambiente e, não raro, instala-se no peito aquela nostálgica sensação de tempo passando, vida correndo e uma insidiosa ansiedade tomando conta. Felizes as que não passam por isso: deles é o reino da terra!

Quanto a nós, pessoas comuns valham-nos Deus tudo o que almejamos e o tão pouco que conseguimos realizar.
Ao enviar uma mensagem, fácil é comover os corações humanos – basta a mídia certa, as imagens, melodias e palavras adequadas e até lágrimas rolam, pois é da natureza humana a capacidade de se emocionar com os extremos que fogem da média sejam alegres ou tristes, muito belos ou muito feios, muito fortes ou muito fracos. Assim choramos e rimos com e pelos outros, assim temos boa vontade, praticamos caridade, misericórdia, somos indulgentes, cooperadores, solidários, voluntários, doamos o que nos sobra e mantemos em mente mil e umas boas intenções. Se a maioria das pessoas vivesse apenas pelo que as comove, que maravilha seria o mundo!!

Desde há muito se diz que há falta de boa vontade, mas os povos são compostos, na sua grande maioria por pessoas comuns como eu e você, empenhados em melhorar a vida. Por que não conseguimos realizar o que almejamos? Por que o mundo continua violento, cínico, injusto e cruel? Se nos comovemos com tanta facilidade o que falta para que concretizemos as boas intenções?
À nossa volta há um grande círculo vicioso de violência e injustiça que se fortalece dia a dia afastando milimetricamente a nossa alma da Humanidade da qual, intrinsecamente faz parte. Como defesa nós, adultos, nos fechamos em nossos egos e como crianças adotamos comportamentos narcísicos onde o olhar que mira o outro vê apenas a si mesmo.

Então acreditamos que o tem que prevalecer é a vontade, a crença e o poder individual e assim cada um vende a alma pelo gostinho efêmero do brinquedinho de cada dia, para o grande sucesso do mundo capitalista, ou comunista, ocidental ou oriental, ou seja, lá como for que o “egoísta” do momento consiga classificar a sua vã filosofia para tirar proveito da vida alheia. Porque a Terra é redonda e está aviltada de norte a sul, leste a oeste, em cada cantinho por escondido que seja.

Não há modelo que as futuras gerações possam seguir – o que, no fundo é ótimo porque algo muito novo tem que surgir, senão a espécie humana corre um risco muito mais sério do que o que estamos vivendo.

Não há tempo a perder - temos que ajudar a criar este novo modelo com a máxima necessidade. Como? Oferecendo às crianças valores reais nos quais elas possam realmente confiar. Nestes valores reside o grande segredo do sentido da vida. Neles cada um de nós cresce íntegro e, em se tronando adulto, transforma-se num elo da continuação, um pequeno círculo de luz completo e preenchido de si mesmo que pode se expandir aos cuidados e preocupações com as gerações subseqüentes. Porém é difícil atingir este grau de maturidade porque não o conseguimos sozinhos na vida medíocre das sociedades modernas. Porque pensamos, perdemos a sabedoria das colméias e dos formigueiros e nossos filhotes tem que se criar à mercê da própria sorte como o bando de “Peter Pan e os Meninos da Terra do Nunca”.

Nossos antepassados acertaram e erraram nos valores que escolheram e nos legaram, exatamente como fazemos agora. Mas, em nossa cultura, a grande novidade é a dissolução da família tradicional e a lacuna pela falta do novo padrão. Afinal, quem toma conta destas crianças? De quem é a responsabilidade e a obrigação de cuidado? Quem pode e deve dizer o sim e o não, ensinar deveres, mostrar retidão, hombridade, ética e ordem? Pais e mães que ainda não se tornaram adultos maduros relegam a responsabilidade de educar seus filhos à escola que, com justa razão, não toma a peito esta tarefa. Seguindo no mesmo raciocínio, a escola perde para a Internet proporcionar a maravilha do encanto dos descobrimentos juvenis e relega a educação física e afetiva dos grupos e das massas - tarefa sim que lhe compete. E assim vamos, de empurra, empurra, perdendo para o descaso, para as drogas e para a infelicidade o nosso grande tesouro: as nossas crianças.
O valor a passar é simples, é bíblico: “amai-vos uns aos outros como Eu os amei”. Pois é só amando que respeitamos a essência e a natureza de cada ser.

Um valor construtivo não é aquele em que acreditamos pelo hábito de praticá-lo, mas o que é absolutamente adequado para a situação de vida. Não interessa de quem será composta a nova família-padrão e sim “como” ela cuidará dos filhos; não interessa a carreira dos pais e sim que os filhos precisam de atenção, de presença, de natureza. Não importa ter filhos e sim praticar a maternidade e a paternidade em toda sua extensão. Também de nada serve a escola que mais aprova no vestibular, mas tem seus alunos reprovados na alegria, na serenidade, na maturidade como adultos.
Ao ser humano crescido que não consegue ser um elo, que ainda não se completou, talvez tenha faltado o cuidado e atenção na metamorfose, por isso não se transmutou.

A reflexão a que nos levam os ciclos da vida da borboleta mostra a importância do amor que é ação de acreditar e cuidar. Porque é preciso ter fé e acreditar na natureza para antever na barriga da mãe o futuro do planeta. É preciso resignação para aceitar todas as mudanças porque o novo é diferente, para sempre diferente. É preciso muita energia e muitos recursos para satisfazer as necessidades da lagarta no seu rápido crescimento, tal como um bebê nos primeiros anos. É preciso atenção e delimitação nas épocas de troca de pele em que o ser galga o mundo com voraz apetite e se expõe a mil perigos. É preciso apoio e amparo quando ele se recolhe para descobrir sua essência e muita paciência para aguardar o tempo deste recolhimento. E, finalmente, há que se estar presente para compartilhar o momento do desprendimento e aguardar – apenas com um sorriso – o alçar do grande e livre vôo para a vida numa dimensão além da casa em que nasceu e se formou.

Muitas pessoas não completam esses ciclos e ficam com suas almas presas numa destas etapas impedidas de alcançar a liberdade de ser quem foram predestinadas. A transmutação pode então ocorrer por força e mérito da consciência através dos recursos que a própria humanidade nos concede. Há que sair de si mesmo, pelo portão da empatia e chegar ao próximo pelo caminho da compaixão, assim narciso quebra o espelho em que vê em todos o seu próprio reflexo e a pessoa (agora madura e íntegra) passa a sentir em si o que os outros sentem e além de se comover emocionalmente, passa a se mover efetivamente rumo a uma ação amorosa, cuidadosa e construtiva.

Assim as boas intenções serão alcançadas e o mundo será mais justo e bonito. É preciso acreditar!
Ana

Dezembro 2008

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Linhas de transformação

Metamorfose


Para que tudo aconteça é necessário acreditar

E antes de tudo ter fé na natureza.


Ao encontrar as perolazinhas nacaradas escondidas sob as folhas,

O sábio antevê o futuro num vôo leve e colorido.


Mas é preciso sabedoria para suportar, com resignação,

A lagarta no seu palmo a palmo e seu voraz apetite

Para trocar as peles do seu crescimento.


E eis então que um dia ela se recolhe sobre si mesma

E não é em vão que sua pele endurece.


Mas não é para repouso que constrói seu casulo,

E sim para total recolhimento.


Mudar requer tempo.

E a crisálida é agora seu castelo,

A fortaleza onde, em fios de seda,

A mesma essência se transmuta em novo ser.


Fechado, em profunda concentração e total paciência,

Aquele que apenas é,

Permite que se tracem nele os planos ancestrais.


No momento certo, do dia certo, a pupa se rompe

E dela eclode a maravilha!


Cheia de vida a borboleta expande as asas e, num impulso,

Sobe aos ares, livre para bailar.

Pousará sobre as flores e apenas sorverá seu néctar.

Porque a liberdade, definitivamente, a preenche.


Ana Lara.




segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Linhas do tempo

Carícias de Luxo

Domingo, tarde de chuva em Curitiba,você está ali, na frente da TV, com a mente meio parada, preguiça até de ler, o controle remoto zapeando prá cima e prá baixo, sem opções além das gritarias dos programas de auditório ou a xaropada dos filmes americanos "fuck you" cheios de tiros, drogas e sexo animal e, de repente, vê que vai começar uma velha sessão de cinema. Quer coisa melhor que uma comédia leve e gostosa com Doris Day e de quebra o bonitão Cary Grant?

Embarquei sabendo o que ia encontrar revendo este filme, mesmo não me lembrando mais da história. Com a música de abertura, não foi apenas o filme que começou, abriu-se um portal e eu viajei legal!! Quem sabe o Lido, ou Ópera, Avenida, Ritz, Bristol, Condor, poltronas Móveis Cimo, de madeira forradas em veludo vermelho, Rua XV ou Praça Osório, Ray Connif no ambiente do cinema,
ano 65 ou 66, sainha de pregas xadrez, blusa de lãzinha canelada, meias brancas três-quarto de tricô rendado, sapatinho preto de verniz, ou um rendigote azul turquesa de gola chinesa engomada e bem alta, que eu 'adorava' com tamanco de plataforma. Só faltou a pipoca, por pura falta de milho em casa.

A história é tudo de bom, de um tempo em que nada tinha a obrigação de ser "politicamente correto" _ um aparte: vocês, da velha guarda, já observaram como a geração dos nossos filhos é cobradora dos valores alheios? Hoje em dia pode-se tudo, de acordo com os valores de cada 'tribo', mas pouco se admite para os outros!. Bom, voltando ao meu sofá no domingo: o lindo, maravilhoso, solteirão convicto, rico e auto-confiante Cary Grant, num dia de chuva, quase atropela, com seu carrão a fôfa da Doris Day, mocinha do interior que veio trabalhar (e arranjar marido) em Nova York e mora numa pensão com uma amiga feminista. O poderoso Cary (nossa quanta intimidade !!) dá um banho de água suja nela e vai embora porque está atrasado para seus negócios. E ela fica lá, furiosa. Depois ele se sente culpado (é, os machos de antigamente sentiam culpa, sim) e manda seu secretário procurar pela mocinha e se desculpar, pagar os prejuízos e coisa e tal.

Com um roteiro simples assim, tá armada a trama e você sabe, de antemão, que ela vai conquistá-lo e casar com ele. Mas aqueles não eram filmes com segredos a serem desvendados, eram epenas pura diversão. E aquela gente de Hollywood sabia fazer comédia. Mas também nós, os expectadores, éramos mais simples, sem tantos estímulos da mídia, tínhamos uma vida interior mais intensa, um domínio maior de nossos sentimentos, mais valores contrabalançando a necessidade de expressar sensações cada vez mais intensas. Nós, os jovens suburbanos do mundo de então, só contávamos com nossos hormônios para nos estimularmos. Quem abe, por isso mesmo, era tão bom o encontro com o outro, dançar agarradinho, pegar na mão, abraçar no 'escurinho do cinema' - nossos estimulantes eram a cafeína da cuba-libre e uma imaginação onde só o céu era o limite _ uma capacidade de sonhar como a Doris tão bem traduzia. A cara dela quando escolhe um dos presentes do Cary (olha a intimidade de novo, o Cary parece que precisa do Grant junto porque ele era demais!!!!), a tal capa branca forrada de pele que, em inglês dá nome ao filme (algo como "Aquele Toque de Mink"), e fecha os olhinhos em puro deleite, é sensação pura, sem necessidade dos amassos corporais ou embates sexuais dos filmes de agora que têm que atender à necessidade de voyerismo sexual do expectador atual.

No desenrolar literal do filme, os encontros e desencontros das intenções iniciais da dupla, geram cenas de um humor tão básico que a gente sente aquela alegria pura, infantil no bom sentido da imaginação inocente dos subentendidos. E quando acaba fica aquela lembrança boa dos anos dourados.

Valeu a tarde de chuva! Deus te abençoe Tia Doris, abenção Seu Cary, no andar de cima.
Ana Lara

domingo, 5 de outubro de 2008

Linhas da memória 1



Eles são um convite à memória!


Quem conhece um pouco sobre flores há de saber que, de junquilhos não se compram mudas em floriculturas urbanas. Simples, agrestes, sazonais, às vezes aparecem à toa nos jardins e se espalham como lebres, fazendo virar as cabeças de quem passa na calçada, tal o perfume que exalam. Tê-los é quase um presente, contê-los, requer olhar vigilante. Aparecem na primavera, e logo somem, se escondem nos gramados para aparecerem espontâneos, tempos depois.

Tenho deles um sentimento de infância. Era daquelas flores que as meninas podiam colher à vontade para enfeitar suas casinhas de bonecas. Ah! bons tempos, ou, felizes as meninas que tinham tempo e espaço para armarem suas quinquilharias em espaçosos jardins, à sombra de árvores que, cúmplices, forneciam também os frutos para as comidinhas. E a vida corria solta, com a 'casa' para cuidar, os 'filhos' para carregar e vestir, uma faina intensa de cortar e costurar panos, encher panelinhas com terras, areias e folhas, aprendendo a química da cozinha como as Donas Bentas lá dentro das casas.

Eu tinha uns cinco ou seis filhos e, que trabalho me dava: trocava-lhes as roupas, saía pelas casas das tias à cata de retalhos, adereços e ajuda para deixar as meninas bonitas, preparava festas com mesas postas a rigor, lia-lhes estórias de livros sem palavras, subia nas árvores, carregando-os às pencas, para que pudessem ver o mundo lá de cima - às vezes esquecia de descer alguém, para meu meu terror noturno temendo os perigos que a cria corria na escuridão daquele quintal sombrento.

E tudo me volta ao perfume dos junquilhos. Mas o que quero contar é que aquela era minha vida, real, concreta, verdadeira, tatuada na minha memória tanto quanto os irmãos, os primos, os amigos. Tão verdadeira quanto esta de agora, mais de cinquenta anos depois. Digo isso porque as crianças de hoje em dia têm uma noção e um discernimento impressionantes do tempo. Converse com alguém de cinco anos para tirar a dúvida - eles sabem, conceitualmente, o que é 'imaginação', 'fantasia', 'brinquedo', 'faz-de-conta'...... Se meu neto encontrasse, por acaso agora, a sua avó aos cinco anos e com ela conversasse, teria dela uma impressão meio estranha. Realmente seríamos seres de planetas diferentes -Laura Jane e o Homem Aranha!

Até pensei ser ele um carinha muito sério, até falar com uma senhorita vestida de “princess sei lá o quê”, toda em pink, azuis celestes e purpurina (ou melhor, gliter), com unhas e lábios pintados, olhos delineados, sandalinhas de salto alto– do tamanho do seus pés – em acrílico transparente, como eu sequer poderia então imaginar fossem os sapatinhos de cristal de Cinderela. Daquele jeito, a mocinha carregava um grande e gordo bebê de corpo fôfo e macio, que fala, chora, ri e mama em mamadeiras quase reais (oh! inveja!!). Armei meu sorriso e lhe perguntei, confidente _”como se chama seu filhinho?” Ao que ela me olhou, desconfiada :_”não é filho, é minha boneca, maior que a da Mariana e fala seis ‘coisas’ e a da Sofia só faz xixi”.

Viu só o que a televisão fez com a gente? Ou a gente é que fez isso com as crianças?

Daí ficamos nos perguntando por que, principalmente em dias de chuva como este, dá aquela nostalgia, uma saudade de tardes de sol, de ter cinco anos e sentar na grama com as comadres ao lado, os filhinhos no colo e só ser feliz sentindo o perfume de junquilhos?


Ana Lara

sábado, 20 de setembro de 2008

Linha da fortuna

Minha fortuna dobrou!

O dia foi 14 de setembro, domingo, uma manhã fria nesta cidade de tempo tão instável. Nenhuma estrela visível apontava para aquele hospital-maternidade, não encontrei reis magos no caminho, nem vi pastores se acercando. Ao invés da gruta, um centro cirúrgico, como leito não uma manjedoura e sim um moderno bercinho de acrílico.
Mas o milagre, bilhões de vezes reproduzido, aconteceu novamente e outro menininho veio ao mundo, carregado de todas as esperanças e cercado de todo amor possível de nossos corações.

Na véspera, como que por encanto, a mamãe Úli se fez calma por ter aceitado aquilo que a vida lhe apontava e, com a serenidade, se fez bonita e seu sorriso que andava sumido reapareceu. A família, reunida e relaxada, se fartou de sonhos - estes literais, recheados de goiabada e doce de leite feitos pela Lia - e conversas fiadas. Assim, de mansinho, o menino deu o recado do que queria receber na sua chegada: só tranquilidade!

Na hora 'H' a cegonha teve que dar uma mãozinha porque tia natureza deu uma falhada. Não importa, pela barriga da mamãe o bebê saiu ainda mais pertinho do seu coração e ao alcance das mãos do papai. Theo nasceu lindo, sadio, um presente da Vida embrulhado em luzes.

Meu coração de avó bateu forte com uma felicidade de rainha: naquele momento minha fortuna dobrara.
Podem dizer que sou ousada, mas eu quero tudo do melhor para ele. Eu quero manhãs de céu azul e tardes de nuvens rosas para seus olhos, quero ar puro e água limpa para seus pulmões, quero silêncio dos motores para o seu sono, quero leite farto de sua mãe para que ele tenha confiança, quero vê-lo aconchegado em braços firmes, aquecido em seu quarto de ovelhinhas e quero sombra fresca para seus passeios. E mais tarde, os mais puros frutos da terra. Quero também vizinhos prestativos e amigos carinhosos. Parentes que o aceitem exatamente como ele se fizer ao longo dos anos. Professores cuidadosos. Que seus pais sejam incondicionalmente amorosos e extremamente responsáveis. Eu quero que ele seja, simplesmente, feliz!

E nem me lembrem que pode não ser 'bem assim' - eu sei, já vi que a vida não poupa nem as crianças de seu cotidiano - mas, por favor, tenham o máximo de cuidado com o que falam e fazem na frente deste menino porque eu, como avó, estarei vigiando o mundo encantado dos sonhos em que ele vive.

Se os moinhos de vento soprarem, podem me chamar de "Sancho Pança" que eu sorrirei com orgulho - este é um papel que gosto de desempenhar - porque agora defendo o que vê aquele ao meu lado, Pedrinho, meu pequeno "Dom Quixote"! Ele sabe o que seu 'primo-irmão' deseja e precisa.

Super heróis, fadas e duendes na defesa da fantasia, contem comigo: sempre alerta,
Vovó Ana!!