
Eles são um convite à memória!
Quem conhece um pouco sobre flores há de saber que, de junquilhos não se compram mudas em floriculturas urbanas. Simples, agrestes, sazonais, às vezes aparecem à toa nos jardins e se espalham como lebres, fazendo virar as cabeças de quem passa na calçada, tal o perfume que exalam. Tê-los é quase um presente, contê-los, requer olhar vigilante. Aparecem na primavera, e logo somem, se escondem nos gramados para aparecerem espontâneos, tempos depois.
Tenho deles um sentimento de infância. Era daquelas flores que as meninas podiam colher à vontade para enfeitar suas casinhas de bonecas. Ah! bons tempos, ou, felizes as meninas que tinham tempo e espaço para armarem suas quinquilharias em espaçosos jardins, à sombra de árvores que, cúmplices, forneciam também os frutos para as comidinhas. E a vida corria solta, com a 'casa' para cuidar, os 'filhos' para carregar e vestir, uma faina intensa de cortar e costurar panos, encher panelinhas com terras, areias e folhas, aprendendo a química da cozinha como as Donas Bentas lá dentro das casas.
Eu tinha uns cinco ou seis filhos e, que trabalho me dava: trocava-lhes as roupas, saía pelas casas das tias à cata de retalhos, adereços e ajuda para deixar as meninas bonitas, preparava festas com mesas postas a rigor, lia-lhes estórias de livros sem palavras, subia nas árvores, carregando-os às pencas, para que pudessem ver o mundo lá de cima - às vezes esquecia de descer alguém, para meu meu terror noturno temendo os perigos que a cria corria na escuridão daquele quintal sombrento.
E tudo me volta ao perfume dos junquilhos. Mas o que quero contar é que aquela era minha vida, real, concreta, verdadeira, tatuada na minha memória tanto quanto os irmãos, os primos, os amigos. Tão verdadeira quanto esta de agora, mais de cinquenta anos depois. Digo isso porque as crianças de hoje em dia têm uma noção e um discernimento impressionantes do tempo. Converse com alguém de cinco anos para tirar a dúvida - eles sabem, conceitualmente, o que é 'imaginação', 'fantasia', 'brinquedo', 'faz-de-conta'...... Se meu neto encontrasse, por acaso agora, a sua avó aos cinco anos e com ela conversasse, teria dela uma impressão meio estranha. Realmente seríamos seres de planetas diferentes -Laura Jane e o Homem Aranha!
Até pensei ser ele um carinha muito sério, até falar com uma senhorita vestida de “princess sei lá o quê”, toda em pink, azuis celestes e purpurina (ou melhor, gliter), com unhas e lábios pintados, olhos delineados, sandalinhas de salto alto– do tamanho do seus pés – em acrílico transparente, como eu sequer poderia então imaginar fossem os sapatinhos de cristal de Cinderela. Daquele jeito, a mocinha carregava um grande e gordo bebê de corpo fôfo e macio, que fala, chora, ri e mama em mamadeiras quase reais (oh! inveja!!). Armei meu sorriso e lhe perguntei, confidente _”como se chama seu filhinho?” Ao que ela me olhou, desconfiada :_”não é filho, é minha boneca, maior que a da Mariana e fala seis ‘coisas’ e a da Sofia só faz xixi”.
Viu só o que a televisão fez com a gente? Ou a gente é que fez isso com as crianças?
Daí ficamos nos perguntando por que, principalmente em dias de chuva como este, dá aquela nostalgia, uma saudade de tardes de sol, de ter cinco anos e sentar na grama com as comadres ao lado, os filhinhos no colo e só ser feliz sentindo o perfume de junquilhos?
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