segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Linhas do tempo

Carícias de Luxo

Domingo, tarde de chuva em Curitiba,você está ali, na frente da TV, com a mente meio parada, preguiça até de ler, o controle remoto zapeando prá cima e prá baixo, sem opções além das gritarias dos programas de auditório ou a xaropada dos filmes americanos "fuck you" cheios de tiros, drogas e sexo animal e, de repente, vê que vai começar uma velha sessão de cinema. Quer coisa melhor que uma comédia leve e gostosa com Doris Day e de quebra o bonitão Cary Grant?

Embarquei sabendo o que ia encontrar revendo este filme, mesmo não me lembrando mais da história. Com a música de abertura, não foi apenas o filme que começou, abriu-se um portal e eu viajei legal!! Quem sabe o Lido, ou Ópera, Avenida, Ritz, Bristol, Condor, poltronas Móveis Cimo, de madeira forradas em veludo vermelho, Rua XV ou Praça Osório, Ray Connif no ambiente do cinema,
ano 65 ou 66, sainha de pregas xadrez, blusa de lãzinha canelada, meias brancas três-quarto de tricô rendado, sapatinho preto de verniz, ou um rendigote azul turquesa de gola chinesa engomada e bem alta, que eu 'adorava' com tamanco de plataforma. Só faltou a pipoca, por pura falta de milho em casa.

A história é tudo de bom, de um tempo em que nada tinha a obrigação de ser "politicamente correto" _ um aparte: vocês, da velha guarda, já observaram como a geração dos nossos filhos é cobradora dos valores alheios? Hoje em dia pode-se tudo, de acordo com os valores de cada 'tribo', mas pouco se admite para os outros!. Bom, voltando ao meu sofá no domingo: o lindo, maravilhoso, solteirão convicto, rico e auto-confiante Cary Grant, num dia de chuva, quase atropela, com seu carrão a fôfa da Doris Day, mocinha do interior que veio trabalhar (e arranjar marido) em Nova York e mora numa pensão com uma amiga feminista. O poderoso Cary (nossa quanta intimidade !!) dá um banho de água suja nela e vai embora porque está atrasado para seus negócios. E ela fica lá, furiosa. Depois ele se sente culpado (é, os machos de antigamente sentiam culpa, sim) e manda seu secretário procurar pela mocinha e se desculpar, pagar os prejuízos e coisa e tal.

Com um roteiro simples assim, tá armada a trama e você sabe, de antemão, que ela vai conquistá-lo e casar com ele. Mas aqueles não eram filmes com segredos a serem desvendados, eram epenas pura diversão. E aquela gente de Hollywood sabia fazer comédia. Mas também nós, os expectadores, éramos mais simples, sem tantos estímulos da mídia, tínhamos uma vida interior mais intensa, um domínio maior de nossos sentimentos, mais valores contrabalançando a necessidade de expressar sensações cada vez mais intensas. Nós, os jovens suburbanos do mundo de então, só contávamos com nossos hormônios para nos estimularmos. Quem abe, por isso mesmo, era tão bom o encontro com o outro, dançar agarradinho, pegar na mão, abraçar no 'escurinho do cinema' - nossos estimulantes eram a cafeína da cuba-libre e uma imaginação onde só o céu era o limite _ uma capacidade de sonhar como a Doris tão bem traduzia. A cara dela quando escolhe um dos presentes do Cary (olha a intimidade de novo, o Cary parece que precisa do Grant junto porque ele era demais!!!!), a tal capa branca forrada de pele que, em inglês dá nome ao filme (algo como "Aquele Toque de Mink"), e fecha os olhinhos em puro deleite, é sensação pura, sem necessidade dos amassos corporais ou embates sexuais dos filmes de agora que têm que atender à necessidade de voyerismo sexual do expectador atual.

No desenrolar literal do filme, os encontros e desencontros das intenções iniciais da dupla, geram cenas de um humor tão básico que a gente sente aquela alegria pura, infantil no bom sentido da imaginação inocente dos subentendidos. E quando acaba fica aquela lembrança boa dos anos dourados.

Valeu a tarde de chuva! Deus te abençoe Tia Doris, abenção Seu Cary, no andar de cima.
Ana Lara

Um comentário:

Uli disse...

Tô até agora tentando adivinhar o que seria um rendigote... ;o) Deu vontade de ver os filmes do Jerry Lewis na casa da vó sábado à tarde, antes do Chacrinha! Com cheiro de torta de banana assando.
Beijo, dona saudosista.