sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Linhas dos Natais




Saudosismos?!

Manhã de 26 de dezembro, o olhar vaga pela casa que guarda as lembranças da festa. Pára na sala, passa pelo presépio montado na lareira com papel-pedra imitando a gruta, corre ao pinheirinho (de plástico) enfeitado com os pequenos objetos coloridos e brilhantes que vão se acumulando através dos anos - se detém num pião, dourado e verde, pendurado entre bolas e laços,e num instante puxa a linha da memória que gira, como um caleidoscópio, pelos Natais da minha vida.

Vejo longe, flocos de algodão levemente pousados em galhos de Araucária que sustentavam pesadas e frágeis bolas de vidro de vermelhos e pratas tão polidos que refletiam com uma nitidez impressionante e se transformavam em espelhos mágicos que engordavam e distorciam os olhos e sorrisos das crianças. Quando caiam se espatifavam em mil caquinhos – que a gente moía transformando o vidro em purpurina, misturava com goma arábica e contornava os cromos colados em cartolinas onde eram transmitidos os votos natalinos pregados nas janelas. Ao lado do pinheirinho armava-se o presépio, motivo e centro da data, uma maquete montada com caixas, forrada com musgos, pedras e areias coloridas, cheio de carneirinhos e seus pastores, casinhas nas encostas, a sagrada família, os três reis magos, os anjos e a estrela.

Dos presentes pouco me lembro – sei que havia sempre uma roupa nova para a missa do galo e um brinquedo simples, com certeza. Mas o que ficou gravado como uma fotografia era aquele sempre mesmo canto da sala montado das expectativas para a noite santa em que a família se enfeitava, a cozinha cheirava galinha assada, pão de mel, maçã e fragrâncias amendoadas e os primos e primas eram aguardados com ansiedade. Os singelos Natais da minha infância.

Mais tarde veio o primeiro tempo de divisão – eu tinha, quem sabe, um metro e meio, me encarregava agora da decoração da sala com muito senso estético - mas desviava os olhos daquelas bolas brilhantes que despertavam uma nostalgia que eu queria ignorar. O tempo me obrigava a crescer e o mundo que eu via tirava da minha alma adolescente a alegria do Natal.

Muitos Natais depois, com a minha menina loira de olhar azul, o espírito voltou na forma de um pinheirinho de três palmos e uma caixa de bolas de vidro prateadas arranjados sobre uma mesinha de canto na sala daquele moderno apartamento de casada, com vista para o mar, num Natal de muito calor, pouca família e nenhum presépio.

O tempo deu suas voltas em nossas vidas e um dia habitávamos uma casa que tinha cara de Natal: grandes janelas, jardins, crianças e bichos. Pinheiros de cinco metros fartamente enfeitados de laços, brinquedinhos, bolas e tudo mais que a imaginação e a habilidade pudessem criar enfeitaram os anos de muitas festas em que a família (que crescia na proporção de uma ou mais crianças por ano) se reunia numa profusão de pacotes enfeitados e brinquedos promovidos pelo Papai Noel. O perfume de cedro fresco rescendia na casa arejada e da cozinha vinham para a grande mesa perus, presuntos, empadões, sorvetes e muito chocolate. Comovíamos-nos cantando Noite Feliz abraçados, secretamente desejando que uma impossível nevezinha batesse à porta. O presépio era apenas uma pequena cena bucólica, sempre esteticamente arranjada e iluminada.

Daqueles anos me lembro da preocupação com os detalhes, de gente e mais gente chegando, da gritaria das crianças no corre-corre dos brinquedos novos. De nossas jovens conversas e nossos planos de felicidade futura.

Depois vieram os Natais dos anos de perdas – aquelas,intimamente profundas que todos temos, de pessoas e de sonhos. Estes foram os Natais mais guardados e sentidos, por isso mesmo, quem sabe, os mais cristãos. Cada um que partia deixava uma saudade doída e um ensinamento que fazia sentido. Cada sonho desfeito fazia amadurecer o espírito. E assim o presépio foi ganhando de novo significado na alma e no coração do Natal.

As crianças da casa grande cresceram e hoje têm as suas próprias: outros menininhos que anseiam em abrir os pacotes, mas já não se põem em desabaladas correrias aos gritos de alegria pelos corredores da casa - neste mundo de crianças sem rua para brincar, ao invés de bolas e bicicletas, as crianças de apartamento ganham montanhas de pacotes, bonecas com pilhas e games programados para "matar inimigos" - ilusões tão passageiras que, não raro, sequer sobrevivem dezembro. Os enfeites da árvore já não se quebram, por medida de segurança, mas não têm o brilho que captura caretas infantis. E a festa, que é cristã, quase não tem presépio: o centro de tudo é a mesa farta e pacotes para abrir. Alegria mesmo, só se vê na cara dos mui pequeninos, que esperam e sempre acreditam!

Muitos dizem que o espírito do Natal se perdeu nas ondas do consumismo desenfreado - acho que não, o que se perde nestas ondas é apenas a razão. O Natal evoca doação, desprendimento e o comércio se aproveita deste impulso humano para vender mais, só isso. No entanto, hoje em dia é tão fácil presentear que o ato perde o propósito e não preenche a alma de alegria.

Fomos longe na busca da felicidade do Natal pela quantidade de pacotes debaixo da árvore na sala de casa. E descobrimos que ela não estava lá. Mas estamos tomando o caminho de volta – o espírito desta festa, aos poucos, abre as portas de nossas casas e vai para a comunidade na forma de solidariedade.

Nossas próprias crianças estão tão fartas de brinquedos que o que nos comove são as imagens de crianças pobres e alheias sorrindo com os brinquedos que recebem. E, se não se vê nos convidados à nossa mesa, o brilho no olhar está naqueles que têm a fome de regalias saciada ao menos nestes dias. Às nossas vãs conversas de família falta o carisma das histórias de gente que nesta noite sai de seu conforto para confortar alguém. Papai Noel lhes empresta a fantasia, mas o espírito cristão da caridade, da empatia, da compaixão, toma a forma do cuidado amoroso das pessoas de boa vontade que dão forma à esperança que o presépio simboliza. Feliz o tempo em que as figuras de gesso da Noite Santa possam ser substituídas pela ação direta e efetiva das pessoas, vigiando e cuidando uns dos outros.

Este é o espírito que espero minhas crianças guardem em suas memórias – que, quando os pacotes, por serem tantos, não fizerem mais sentido, as lembranças dos Natais fiquem marcadas pelas atitudes amorosas e solidárias de suas famílias dentro e fora de suas casas. Que o Papai Noel desça de seu pedestal de super herói e que a força do Menino Jesus volte a comover nossos corações. Que sejamos como os Reis Magos dando à Criança nossa presença como o melhor presente.

E que então seja Natal todos os dias do ano.

Ana Lara

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Linhas do Papai Noel para as crianças



Mensagem do Papai Noel

Olá queridas crianças,

Estou feliz por estar com vocês nestes seus anos de infância como faço há muitas gerações, sempre procurando atender os seus pedidos.

Eu existo há muito, muito tempo e, de onde estou, observo como vivem as crianças do mundo todo. Fico triste em ver crianças tão pobrezinhas que não têm sequer o que comer quanto mais brinquedos para brincar. Quero explicar a vocês que no mundo mágico em que moro, preciso da ajuda dos adultos que cuidam das crianças para que tudo aconteça. Como tudo no mundo, sozinho eu não posso fazer nada. Os presentes que vocês recebem de mim são escolhas dos adultos que os cuidam.


Então eu peço a vocês que ajudem a cuidar das crianças pobrezinhas dando a elas brinquedos que sobram em seus quartos – assim vocês serão meus duendes, ajudando meu trabalho.


Mas há outra coisa que também entristece o meu coração, que é ver como as crianças das grandes cidades estão desaprendendo a brincar. O tempo passa muito depressa e a infância logo, logo se acaba. Vejo dias de domingo e feriados, de sol claro e céu azul e, muitos e muitos dos meus amiguinhos vendo TV ou jogando games no computador. Vejo as cozinhas frias e vazias e muitas famílias comendo comidas em lanchonetes que parecem legais, mas que não têm uma comida saudável para o crescimento dos ossos, dos músculos e do cérebro das crianças. Vejo muitas crianças assistindo desenhos na TV e poucas escutando histórias dos seus papais e mamães. Vejo as escolas ensinando muitas lições e dando poucos abraços e carinhos nos seus alunos. Parece que os adultos estão um pouco descuidados com as crianças hoje em dia – vocês têm que entender que eles têm muito que fazer e não sobra muito tempo.


Por isso eu quero fazer um pedido, muito especial a cada um de vocês: eu quero que vocês brinquem prá valer, todos os dias. Acordem cedo e durmam cedo porque as manhãs são como a infância do dia. Comam muita fruita fresca, alguma verdurinha, feijão, arroz e carninha, gelatina, sorvetinhos; bebam água pura ou sucos ao invés de refrigerantes. E pulem corda, joguem bola, façam pique, brinquem de roda com seus amigos, joguem futebol, brinquem com bonecas, façam e descubram tudo o que podem fazer a cada hora livre , antes de sentar em frente a TV.


Vocês são muito inteligentes e espertos – a grande maioria das crianças das cidades grandes sabe coisas que os antigos nunca conheceram, mas este novo modo de viver polui muito o nosso planeta – suja a água, o ar, o solo e deixa a alma um pouco triste. O antídoto para isso é a alegria sincera que sai do coração das crianças quando brincam de verdade usando suas pernas e braços, sua voz e seus ouvidos – correndo, pulando, subindo e descendo, cantando, sorrindo, sendo feliz! Se lembrem que vocês não precisam brinquedos caros e complicados, os últimos lançamentos que a TV mostra, para serem felizes vocês precisam só de amor e cuidado – precisam dos adultos brincando juntos e de outras crianças. Este é um direito das crianças e vocês têm que pedir isso a eles porque muitos dos adultos já esqueceram o que é ser criança.


O Papai Noel faz a sua parte assoprando nos ouvidos das pessoas, enquanto elas dormem, sobre as necessidades das crianças, mas é só o que eu posso fazer tudo mais depende de cada família.

Peço ao Papai do Céu que abençoe especialmente cada criança desta terra, que as proteja para que cresçam sadias, fortes e felizes para construírem um mundo mais limpo para o nosso futuro.


Com muito Amor,

Papai Noel

Linhas de reflexões - final de ano



Natal de 2008
O final de cada ano, fim de ciclo, é quase sempre marcado por uma necessidade de reflexão: o que fizemos e o que deixamos de fazer, os objetivos cumpridos e os sonhos mais uma vez deixados de lado. Soma-se a isso toda a pressão exercida pelo meio ambiente e, não raro, instala-se no peito aquela nostálgica sensação de tempo passando, vida correndo e uma insidiosa ansiedade tomando conta. Felizes as que não passam por isso: deles é o reino da terra!

Quanto a nós, pessoas comuns valham-nos Deus tudo o que almejamos e o tão pouco que conseguimos realizar.
Ao enviar uma mensagem, fácil é comover os corações humanos – basta a mídia certa, as imagens, melodias e palavras adequadas e até lágrimas rolam, pois é da natureza humana a capacidade de se emocionar com os extremos que fogem da média sejam alegres ou tristes, muito belos ou muito feios, muito fortes ou muito fracos. Assim choramos e rimos com e pelos outros, assim temos boa vontade, praticamos caridade, misericórdia, somos indulgentes, cooperadores, solidários, voluntários, doamos o que nos sobra e mantemos em mente mil e umas boas intenções. Se a maioria das pessoas vivesse apenas pelo que as comove, que maravilha seria o mundo!!

Desde há muito se diz que há falta de boa vontade, mas os povos são compostos, na sua grande maioria por pessoas comuns como eu e você, empenhados em melhorar a vida. Por que não conseguimos realizar o que almejamos? Por que o mundo continua violento, cínico, injusto e cruel? Se nos comovemos com tanta facilidade o que falta para que concretizemos as boas intenções?
À nossa volta há um grande círculo vicioso de violência e injustiça que se fortalece dia a dia afastando milimetricamente a nossa alma da Humanidade da qual, intrinsecamente faz parte. Como defesa nós, adultos, nos fechamos em nossos egos e como crianças adotamos comportamentos narcísicos onde o olhar que mira o outro vê apenas a si mesmo.

Então acreditamos que o tem que prevalecer é a vontade, a crença e o poder individual e assim cada um vende a alma pelo gostinho efêmero do brinquedinho de cada dia, para o grande sucesso do mundo capitalista, ou comunista, ocidental ou oriental, ou seja, lá como for que o “egoísta” do momento consiga classificar a sua vã filosofia para tirar proveito da vida alheia. Porque a Terra é redonda e está aviltada de norte a sul, leste a oeste, em cada cantinho por escondido que seja.

Não há modelo que as futuras gerações possam seguir – o que, no fundo é ótimo porque algo muito novo tem que surgir, senão a espécie humana corre um risco muito mais sério do que o que estamos vivendo.

Não há tempo a perder - temos que ajudar a criar este novo modelo com a máxima necessidade. Como? Oferecendo às crianças valores reais nos quais elas possam realmente confiar. Nestes valores reside o grande segredo do sentido da vida. Neles cada um de nós cresce íntegro e, em se tronando adulto, transforma-se num elo da continuação, um pequeno círculo de luz completo e preenchido de si mesmo que pode se expandir aos cuidados e preocupações com as gerações subseqüentes. Porém é difícil atingir este grau de maturidade porque não o conseguimos sozinhos na vida medíocre das sociedades modernas. Porque pensamos, perdemos a sabedoria das colméias e dos formigueiros e nossos filhotes tem que se criar à mercê da própria sorte como o bando de “Peter Pan e os Meninos da Terra do Nunca”.

Nossos antepassados acertaram e erraram nos valores que escolheram e nos legaram, exatamente como fazemos agora. Mas, em nossa cultura, a grande novidade é a dissolução da família tradicional e a lacuna pela falta do novo padrão. Afinal, quem toma conta destas crianças? De quem é a responsabilidade e a obrigação de cuidado? Quem pode e deve dizer o sim e o não, ensinar deveres, mostrar retidão, hombridade, ética e ordem? Pais e mães que ainda não se tornaram adultos maduros relegam a responsabilidade de educar seus filhos à escola que, com justa razão, não toma a peito esta tarefa. Seguindo no mesmo raciocínio, a escola perde para a Internet proporcionar a maravilha do encanto dos descobrimentos juvenis e relega a educação física e afetiva dos grupos e das massas - tarefa sim que lhe compete. E assim vamos, de empurra, empurra, perdendo para o descaso, para as drogas e para a infelicidade o nosso grande tesouro: as nossas crianças.
O valor a passar é simples, é bíblico: “amai-vos uns aos outros como Eu os amei”. Pois é só amando que respeitamos a essência e a natureza de cada ser.

Um valor construtivo não é aquele em que acreditamos pelo hábito de praticá-lo, mas o que é absolutamente adequado para a situação de vida. Não interessa de quem será composta a nova família-padrão e sim “como” ela cuidará dos filhos; não interessa a carreira dos pais e sim que os filhos precisam de atenção, de presença, de natureza. Não importa ter filhos e sim praticar a maternidade e a paternidade em toda sua extensão. Também de nada serve a escola que mais aprova no vestibular, mas tem seus alunos reprovados na alegria, na serenidade, na maturidade como adultos.
Ao ser humano crescido que não consegue ser um elo, que ainda não se completou, talvez tenha faltado o cuidado e atenção na metamorfose, por isso não se transmutou.

A reflexão a que nos levam os ciclos da vida da borboleta mostra a importância do amor que é ação de acreditar e cuidar. Porque é preciso ter fé e acreditar na natureza para antever na barriga da mãe o futuro do planeta. É preciso resignação para aceitar todas as mudanças porque o novo é diferente, para sempre diferente. É preciso muita energia e muitos recursos para satisfazer as necessidades da lagarta no seu rápido crescimento, tal como um bebê nos primeiros anos. É preciso atenção e delimitação nas épocas de troca de pele em que o ser galga o mundo com voraz apetite e se expõe a mil perigos. É preciso apoio e amparo quando ele se recolhe para descobrir sua essência e muita paciência para aguardar o tempo deste recolhimento. E, finalmente, há que se estar presente para compartilhar o momento do desprendimento e aguardar – apenas com um sorriso – o alçar do grande e livre vôo para a vida numa dimensão além da casa em que nasceu e se formou.

Muitas pessoas não completam esses ciclos e ficam com suas almas presas numa destas etapas impedidas de alcançar a liberdade de ser quem foram predestinadas. A transmutação pode então ocorrer por força e mérito da consciência através dos recursos que a própria humanidade nos concede. Há que sair de si mesmo, pelo portão da empatia e chegar ao próximo pelo caminho da compaixão, assim narciso quebra o espelho em que vê em todos o seu próprio reflexo e a pessoa (agora madura e íntegra) passa a sentir em si o que os outros sentem e além de se comover emocionalmente, passa a se mover efetivamente rumo a uma ação amorosa, cuidadosa e construtiva.

Assim as boas intenções serão alcançadas e o mundo será mais justo e bonito. É preciso acreditar!
Ana

Dezembro 2008