
Natal de 2008
O final de cada ano, fim de ciclo, é quase sempre marcado por uma necessidade de reflexão: o que fizemos e o que deixamos de fazer, os objetivos cumpridos e os sonhos mais uma vez deixados de lado. Soma-se a isso toda a pressão exercida pelo meio ambiente e, não raro, instala-se no peito aquela nostálgica sensação de tempo passando, vida correndo e uma insidiosa ansiedade tomando conta. Felizes as que não passam por isso: deles é o reino da terra!Quanto a nós, pessoas comuns valham-nos Deus tudo o que almejamos e o tão pouco que conseguimos realizar. Ao enviar uma mensagem, fácil é comover os corações humanos – basta a mídia certa, as imagens, melodias e palavras adequadas e até lágrimas rolam, pois é da natureza humana a capacidade de se emocionar com os extremos que fogem da média sejam alegres ou tristes, muito belos ou muito feios, muito fortes ou muito fracos. Assim choramos e rimos com e pelos outros, assim temos boa vontade, praticamos caridade, misericórdia, somos indulgentes, cooperadores, solidários, voluntários, doamos o que nos sobra e mantemos em mente mil e umas boas intenções. Se a maioria das pessoas vivesse apenas pelo que as comove, que maravilha seria o mundo!!
Desde há muito se diz que há falta de boa vontade, mas os povos são compostos, na sua grande maioria por pessoas comuns como eu e você, empenhados em melhorar a vida. Por que não conseguimos realizar o que almejamos? Por que o mundo continua violento, cínico, injusto e cruel? Se nos comovemos com tanta facilidade o que falta para que concretizemos as boas intenções? À nossa volta há um grande círculo vicioso de violência e injustiça que se fortalece dia a dia afastando milimetricamente a nossa alma da Humanidade da qual, intrinsecamente faz parte. Como defesa nós, adultos, nos fechamos em nossos egos e como crianças adotamos comportamentos narcísicos onde o olhar que mira o outro vê apenas a si mesmo.
Então acreditamos que o tem que prevalecer é a vontade, a crença e o poder individual e assim cada um vende a alma pelo gostinho efêmero do brinquedinho de cada dia, para o grande sucesso do mundo capitalista, ou comunista, ocidental ou oriental, ou seja, lá como for que o “egoísta” do momento consiga classificar a sua vã filosofia para tirar proveito da vida alheia. Porque a Terra é redonda e está aviltada de norte a sul, leste a oeste, em cada cantinho por escondido que seja.
Não há modelo que as futuras gerações possam seguir – o que, no fundo é ótimo porque algo muito novo tem que surgir, senão a espécie humana corre um risco muito mais sério do que o que estamos vivendo.
Não há tempo a perder - temos que ajudar a criar este novo modelo com a máxima necessidade. Como? Oferecendo às crianças valores reais nos quais elas possam realmente confiar. Nestes valores reside o grande segredo do sentido da vida. Neles cada um de nós cresce íntegro e, em se tronando adulto, transforma-se num elo da continuação, um pequeno círculo de luz completo e preenchido de si mesmo que pode se expandir aos cuidados e preocupações com as gerações subseqüentes. Porém é difícil atingir este grau de maturidade porque não o conseguimos sozinhos na vida medíocre das sociedades modernas. Porque pensamos, perdemos a sabedoria das colméias e dos formigueiros e nossos filhotes tem que se criar à mercê da própria sorte como o bando de “Peter Pan e os Meninos da Terra do Nunca”.
Nossos antepassados acertaram e erraram nos valores que escolheram e nos legaram, exatamente como fazemos agora. Mas, em nossa cultura, a grande novidade é a dissolução da família tradicional e a lacuna pela falta do novo padrão. Afinal, quem toma conta destas crianças? De quem é a responsabilidade e a obrigação de cuidado? Quem pode e deve dizer o sim e o não, ensinar deveres, mostrar retidão, hombridade, ética e ordem? Pais e mães que ainda não se tornaram adultos maduros relegam a responsabilidade de educar seus filhos à escola que, com justa razão, não toma a peito esta tarefa. Seguindo no mesmo raciocínio, a escola perde para a Internet proporcionar a maravilha do encanto dos descobrimentos juvenis e relega a educação física e afetiva dos grupos e das massas - tarefa sim que lhe compete. E assim vamos, de empurra, empurra, perdendo para o descaso, para as drogas e para a infelicidade o nosso grande tesouro: as nossas crianças. O valor a passar é simples, é bíblico: “amai-vos uns aos outros como Eu os amei”. Pois é só amando que respeitamos a essência e a natureza de cada ser.
Um valor construtivo não é aquele em que acreditamos pelo hábito de praticá-lo, mas o que é absolutamente adequado para a situação de vida. Não interessa de quem será composta a nova família-padrão e sim “como” ela cuidará dos filhos; não interessa a carreira dos pais e sim que os filhos precisam de atenção, de presença, de natureza. Não importa ter filhos e sim praticar a maternidade e a paternidade em toda sua extensão. Também de nada serve a escola que mais aprova no vestibular, mas tem seus alunos reprovados na alegria, na serenidade, na maturidade como adultos. Ao ser humano crescido que não consegue ser um elo, que ainda não se completou, talvez tenha faltado o cuidado e atenção na metamorfose, por isso não se transmutou.
A reflexão a que nos levam os ciclos da vida da borboleta mostra a importância do amor que é ação de acreditar e cuidar. Porque é preciso ter fé e acreditar na natureza para antever na barriga da mãe o futuro do planeta. É preciso resignação para aceitar todas as mudanças porque o novo é diferente, para sempre diferente. É preciso muita energia e muitos recursos para satisfazer as necessidades da lagarta no seu rápido crescimento, tal como um bebê nos primeiros anos. É preciso atenção e delimitação nas épocas de troca de pele em que o ser galga o mundo com voraz apetite e se expõe a mil perigos. É preciso apoio e amparo quando ele se recolhe para descobrir sua essência e muita paciência para aguardar o tempo deste recolhimento. E, finalmente, há que se estar presente para compartilhar o momento do desprendimento e aguardar – apenas com um sorriso – o alçar do grande e livre vôo para a vida numa dimensão além da casa em que nasceu e se formou.
Muitas pessoas não completam esses ciclos e ficam com suas almas presas numa destas etapas impedidas de alcançar a liberdade de ser quem foram predestinadas. A transmutação pode então ocorrer por força e mérito da consciência através dos recursos que a própria humanidade nos concede. Há que sair de si mesmo, pelo portão da empatia e chegar ao próximo pelo caminho da compaixão, assim narciso quebra o espelho em que vê em todos o seu próprio reflexo e a pessoa (agora madura e íntegra) passa a sentir em si o que os outros sentem e além de se comover emocionalmente, passa a se mover efetivamente rumo a uma ação amorosa, cuidadosa e construtiva.
Assim as boas intenções serão alcançadas e o mundo será mais justo e bonito. É preciso acreditar!
Ana
Dezembro 2008
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